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CHRYSTA BELL @ CASA INDEPENDENTE [REPORTAGEM]

Chrysta Bell, Casa Independente, Concerto, Fotos

Assinalando a sua terceira visita a Portugal, Chrysta Bell e a sua banda fizeram a aparição a uma plateia restrita em número mas homogénea na satisfação com que receberam mais uma apresentação do seu álbum único This Train, de 2011. Este concerto faz parte de uma tour europeia de relançamento do álbum.

Dir-se-ia quase que Bell e a sua banda irromperam num domingo à tarde na sala de estar de uma qualquer casa particular, dada a atmosfera íntima proporcionada pelo espaço da Casa Independente - «muito íntimo e nós gostamos muito», palavras de Chrysta Bell.

As portadas de madeira fechadas escondiam para a rua o segredo daquela tarde de domingo, a carpete usada e gasta do palco remetia-nos para uma casa de um parente afastado... ou de um cenário de Twin Peaks. Bell surge em palco de sorriso largo e orquídea no cabelo, stilletos pretos e meias de rede, uma figura impecável e intocável. Os seus gestos teatrais, lentos e compassados ao som da música acompanham as suas expressões faciais às vezes quase demoníacas. Um ser mítico que ali estava em palco.

Chrysta Bell, desde o momento em que entra no palco até à sua retirada, sempre executada com uma densa expressividade sensual, arrebata a atenção do público quase ofuscando todos os outros membros da banda. É impossível desviar o olhar. Muitas vezes consegue-se dar um passo atrás e sair por leves instantes da sua ligação a David Lynch e perceber algumas semelhanças a uma Kate Bush mais mimética e de postura cleopátrica. Dona de uma singularidade ímpar, Bell deixa bem claro que todas as pequenas associações que possamos puxar da sua dramática atuação a uma Lana Del Rey ou mesmo a uma Diamanda Galás mais domada na raiva são apenas isso. Chrysta Bell sobe a um nível completamente diferente. Uma personagem dos anos 40, envolta em fumo, uma geisha, de elegância magistral quebrada pela primeira nota saída dos seus lábios impecavelmente escarlates. Uma sereia hipnótica que prende a plateia em terra pelo seu timbre polido e forte.

Difícil é mesmo sair da prisão de referências a Lynch, ainda mais sabendo da sua intrínseca presença em alguns temas (This Train e Polish Poem) e da sua influência na atmosfera desta atuação, que nos deixa a refletir sobre quem se inspirou em quem, se por um lado Bell parece totalmente transportada de um dos filmes de Lynch, no qual seria uma daquela personagens bizarras, indecifráveis e perturbadores, de beleza contundente e poética, também podemos ser levados a pensar que foi ela quem se inspirou no seu mentor, levando à questão de quem será a musa neste binómio.

Um concerto de Chrysta Bell compromete-se a ser muito mais que um espetáculo de música. A música ganha corpo na sua figura e é completamente impossível indissociar uma da outra. Bell surge como um sonho.

Temas penetrantes e inquietantes que tocam ambientes de Lynch e Tarantino, dignos de uma banda sonora de tanta qualidade como um Badalamenti irmão de David Lynch.

Down By Babylon e Swing with Me (este acompanhado por Bell à guitarra) surgem lânguidos e fortes, com excertos que ecoam e viajam até às entranhas.

Dois encores preenchidos com a insistência de um público insaciável e com uma versão de Bell de um tema de Nick Cave (Do You Love Me?) retiram todas as dúvidas, se é que ainda existiam, do poder desta criatura em palco.

Espera-se que Chrysta Bell não seja apenas uma viagem temporária, uma miragem, como ela própria, no nascimento de novos trabalhos.



Data: 2014-03-30
Fotografia: Alexandre Paixão
Texto: Inês Batista