Header Ads

ENTREVISTA: LINDA MARTINI "AS PESSOAS MUITAS VEZES CONFUNDEM FAZER UM BOM NEGÓCIO COM VENDERES-TE, TU VENDES-TE QUANDO DETURPAS A TUA OBRA"


"As pessoas muitas vezes confundem fazer um bom negócio com venderes-te, tu vendes-te quando deturpas a tua obra" (Linda Martini)

Nas vésperas de lançarem o terceiro álbum de originais Turbo Lento, o My Sound, foi até à simpática Casa Independente no Largo do Intendente, encontrar-se com o Hélio Morais e a Cláudia Guerreiro dos Linda Martini, onde numa agradável conversa sobre o novo disco, a nova editora, e os 10 anos da banda, ficamos com a certeza que são um caso aparte no panorama musical português e que os Linda Martini estão aí para ficar.

My Sound: Passado 3 anos, regressaram com novo álbum, Turbo Lento,e após a primeira audição parece um disco mais imediato e direto, mas ao mesmo tempo mais expansivo, o que tem a dizer sobre este novo registo?

Hélio Morais: Sim, é um disco mais expansivo, pelo menos se o compararmos com o Casa Ocupada, mais imediato não sei, por acaso é a primeira vez que nos disseram isso e isso é bom, porque quer dizer que está a suscitar diferentes reações.

Cláudia Guerreiro: A nossa impressão é que ele é talvez menos imediato que o Casa Ocupada, mas se calhar mais do que o Olhos de Mongol, anda no meio destes dois.

MS: Pensam neste álbum como uma continuação do caminho percorrido até aqui com o Olhos de Mongol e o Casa Ocupada, ou o início de algo novo para a banda?

CG: Eu penso que é mais uma mistura, é uma coisa contínua completamente consistente com o percurso que temos vindo a fazer. Todos os álbuns marcam o fim de uma coisa e o início de outra, e penso que este é mais um caso desses. Agora o que vem para a frente, se isto acaba com algum percurso, e se começa outro aqui, mesmo que diferente, isso só no próximo álbum é que se vai ver.

MS: Neste terceiro LP sente-se uma maior predominância do riff e as guitarras estão cheias de força e urgência, e músicas como a Tamborina Fera, Juaréz ou a Aparato são verdadeiras descargas de energia, e que se calhar andam mais próximas do vosso passado no Hardcore,  acham que este é o vosso registo mais Punk?

HM: Eu acho que não, acho que o nosso álbum mais punk é o Casa Ocupada, no entanto, este tem músicas em que os riffs são mais colados aquilo que fazíamos nas bandas mais punk, daí essa sensação, mas acaba por haver muito mais punk e Hardcore no antecessor do Turbo Lento.

Nos teasers de apresentação e lançamento do álbum, o Hélio admite que o vosso processo de composição é um pouco turbulento, Sentem que foi o álbum que mais exigiu de vocês?

HM: Eles são todos assim (risos)

CG: Este só é comparável ao Casa Ocupada, porque o Olhos de Mongol sendo o primeiro álbum, é sempre aquele para o qual tens muito mais tempo para trabalhar e fazer coisas, mesmo o Marsupial que é um EP acaba por ser mais parecido ao Casa Ocupada, e portanto o processo de composição acabou por ser igual, mas apenas com um ano a mais para este aqui.

MS: A última faixa do álbum, Volta, vai ser o próximo single, e o videoclip vai ser divulgado no início do mês de outubro, podem falar um pouco sobre a música e o vídeo?

HM: Para o videoclip nós fomos buscar uma ideia antiga do realizador, o Bruno Ferreira(também foi o realizador do Ratos) que quando a Aparato ainda estava para ser single, ele tinha tido uma ideia que tinha haver com pesca, e com os Pescadores da Nazaré em particular, mas com a Aparato achamos que não fazia muito sentido e acabou por ficar outra ideia para a Ratos, mas com esta música, a letra acaba por ir um bocado ao encontro dessa ideia do mar e dos pescadores, e então pronto, fez sentido que fosse assim.

MS: Qual é a vossa faixa favorita do disco?

HM: Vou deixar esta para a Cláudia responder.

CG: Esta não é a preferida porque isso de ter músicas preferidas é um bocado complicado, mas uma que consideramos todos especial, talvez a mais especial é a Febril, por ser a última a ser fechada, por ser talvez um pouquinho diferente do resto do disco, e também porque tem o sample do Chico Buarque, e acaba por ter e funcionar como algo fresco para nós, sabe-nos bem.

MS: Para este ultimo disco vocês assinaram com a Universal, uma major, apesar de vocês já serem uma banda conhecida e de culto, são também de certa forma uma banda mais indie/alternativa, e quando uma banda assim de “culto” assina por uma major, há sempre aquela velha história de estes gajos estão-se a vender, tiveram  receio que o vosso público visse isso dessa forma?

HM: As pessoas muitas vezes confundem fazer um bom negócio com venderes-te, tu vendes-te quando deturpas a tua obra com o único fim de ganhares dinheiro, nós chegamos à Universal com o disco composto, portanto a Universal chegou a acordo connosco sem sequer ter ouvido o disco.
CG: E Isso nota-se bastante, quem ouvir o disco percebe que aquilo é Linda Martini, temos uma música que talvez seja um pouco mais comercial, que é a Volta, mas se fores a pensar acabas por ver que não é assim.

MS: Até porque a verdade é que ainda não ouvimos nada disso, não ouvimos boca nenhuma em relação a isso, ninguém nos veio dizer agora estão na Universal são uns vendidos,  estamos é a ouvir essa pergunta constantemente, talvez as pessoas pensem muito que vamos ouvir isso.

HM: No Olhos de Mongol, temos o Quarto 210 que é a coisa mais Pop que alguma vez escrevemos, portanto se formos a ver sempre tivemos isso, mas nunca assumimos nenhuma música dessas como single, mas pronto desta vez aconteceu. Mas toda esta questão do venderes-te não passa de um mito, principalmente tendo em conta o estado atual da música e sendo tão difícil viver dela. Hoje em dia não vendes tantos discos assim, logo não vale a pena estares a deturpar a tua obra por uma coisa pela qual não te sentes confortável e que não gostas, com o intuito de vender mais, porque isso não vai acontecer, e ao mesmo tempo vais ficar frustrado porque não vais ganhar dinheiro e não vais fazer aquilo que gostas, portanto a culpa dessa ideia é dos anos 90, eles é que deixaram essas ideias na cabeça das pessoas.

MS: Vão para o terceiro disco, são uma banda já com um percurso de 10 anos, assinaram pela Universal, são uma das maiores bandas de rock em Portugal, tocaram no palco principal do Optimus Alive, têm um concerto marcado no Pavilhão Atlântico. A minha pergunta é, acham que estão a chegar ao pico da vossa carreira, ou artística e musicalmente ainda tem muito mais para dar?

HM: Temos, não te podemos responder a essa pergunta se chegámos ao pico da nossa carreira, porque nunca planeamos uma, nós não temos um objectivo definido daquilo que queremos alcançar, mas sim daquilo que queremos sentir com a música, e isso tem sido cumprido disco após disco, queremo-nos sentir bem a fazer música juntos, os quatro, e queremos ter motivação para o continuar a fazer e isso está a ser cumprido.

MS: Sentem o peso da responsabilidade de terem tornado uma banda conhecida? Ou ainda são a mesma banda do primeiro EP ? Os mesmos “putos” de Queluz?

HM: Não, agora somos trintões de Lisboa (risos), mas a responsabilidade agora é nossa, e é para connosco, a verdade é essa, e temos é de fazer coisas que nos deixem felizes, porque se estivermos a fazer coisas que não nos deixem felizes a nossa forma de estar e a nossa maneira de nos apresentarmos em palco é muito reveladora, e se nós não estivermos a gostar daquilo que estamos a fazer isso vai-se perceber tão bem em palco que muito rapidamente as pessoas deixam de acreditar em nós, por isso a responsabilidade é essencialmente para connosco.

CG: Nós temos de nos manter fiéis aquilo que queremos fazer e que sentimos, e acho que estamos na Universal e fazemos isso, portanto essa parte está ultrapassada, tal como se um dia por acaso nos fartarmos da banda termos cabeça no sítio certo para sabermos quando as coisas tem de ter um fim, não arrastar só porque dá jeito ter a banda ou porque me esta a dar rendimento ou o que seja.

MS: Penso que à exceção do Hélio, mais nenhum de vocês vive da música,  e todos têm carreiras profissionais à parte da música, para uma banda como vocês já com bastante relevo a nível nacional, até que ponto é difícil conseguir conjugar isso com toda a logística de estar numa banda, ensaios, concertos, gravações de discos, entrevistas, tours, etc...?

HM: É mais complicado para o André porque é o único que trabalha em full-time, tanto eu, como a Cláudia, como o Geraldes somos free-lancers, e portanto para ele é um pouco mais complicado mas as coisas moldam-se e ajustam-se para que tudo corra bem, se calhar há concertos em que ele não pode chegar à hora do ensaio de som, chega mais tarde à hora de jantar ou assim, mas as coisas fazem-se.

MS: Já tocaram com os God is An Astronaut e foram tocar ao primavera Sounds em Espanha, já pensaram em internacionalizar-se e ir em tour pela europa, como vemos a  bandas como os More than a Thousand, Black Bombaim, Devilin Me, por exemplo, a fazer, ou sentem que o facto de cantarem em português é limitador nesse aspecto?

CG: Eu acho que não, quando tocamos na Irlanda o facto de cantarmos em português foi positivo, as pessoas interessaram-se por isso, se calhar não acontece porque não acontece, porque se calhar o rock que nós fazemos cá para Portugal era diferente, mas se calhar a nível internacional somos uns gajos a fazer um rock com umas cenas experimentais em português, e não sei, acho que de Portugal para fora ou vais mesmo com uma coisa muito inovadora a nível internacional, ou então vai ser difícil furar, não te basta ser inovador em Portugal.

HM: Sabes todas essas bandas que falaste são bandas que tem uma carreira lá fora, e nós não temos uma, os Devilin Me são a maior banda portuguesa a nível de tour neste momento, eles tem tour bus, andam em tournée com os Madball e bandas do género e nós temos feito alguns concertos lá fora, mas não é uma carreira. Eu acho que também nunca tentámos a sério para perceber o porquê de não dar, nunca houve uma pré-disposição de todos para marcar uma tournée de um mês e ir,e também nunca apostamos numa edição lá fora, portanto não te sei dizer. Black Bombaim não tem voz, e andam em Tournée, agora tenho quase a certeza que nunca iríamos ter lá fora a expressão que temos aqui, porque muita da culpa dessa expressão que temos cá, está associada ao facto de cantarmos em português, porque as pessoas sentem uma identificação muito maior com a língua, porque é a tua língua.

MS: Dia 5 e 12 de outubro, tem marcados os concertos de apresentação do disco, quais são as vossas expectativas?

CG: Esperamos principalmente que o público goste e que as músicas corram bem ao vivo, vai ser nestes dias que as vamos experimentar.

HM: Agora estamos naquela fase em que estamos a desejar que as pessoas gostem do disco, não nos preocupamos com isso até o gravar, a partir do momento em que está gravado se o editas é porque esperas que as pessoas gostem, senão guardavas para ti, e então agora claro que gostávamos de sentir que as pessoas acarinham o disco e que apareçam.